A Ética com a Capoeira

Sua experiência de vida dentro e fora da capoeira lhe guiou a traçar um método de trabalho próprio, um rumo para sua trajetória e um modelo a ser seguido.

Ele viveu a época em que a capoeira era marginalizada, uma vilã para a sociedade, no qual a mesma tentava ocultá-la, desmerece-la ou perseguir quem era capoeira.

Não viveu na pele a perseguição, na sua infância e juventude ela lhe foi ocultada pelos padrões da sociedade que o cercava, mas conviveu com muita gente que sofreu maus tratos dessa mesma sociedade e da própria polícia apenas por ser capoeira. Assim, esses relatos o fizeram a dar mais valor para a Regulamentação da Capoeira, sendo essa uma causa que ele defendia com unhas e dentes.

O antes e o depois da regulamentação é uma prova concreta de sua importância. Quem chegou depois e pegou tudo mastigado, com a possibilidade de fazer rodas em espaços públicos, treinar em academias e clubes de alta classe, não sabe o sofrimento que muitos capoeirista passaram antes dos anos 70.

Andar com um berimbau na rua, já era motivo para passar a noite na cadeia.

“A capoeira nos anos 60 era tão perseguida que muitos deixaram de praticar por causa da polícia, eles tinham ordem da sociedade da época para prender e enquadra na Lei Delegada.” - Mestre Dentinho (Rio de Janeiro)

Os decretos que tentaram tirar a capoeira da ilegalidade nos anos de 1935 e 1937 não surgiram o devido efeito, somente em 1972 com a homologação do Regulamento Técnico da Capoeira pelo Conselho Nacional de Desporto e Ministério da Educação e Cultura (CND-MEC), foi que sua prática foi realmente liberada e a mesma deixou de ser perseguida.

Por isso, os regulamentos que ali foram escritos devem ser considerados a Carta Magna da Capoeira, o exaustivo trabalho que seu Mestre “Mestre Mendonça” teve para levantar as informações e lapidar o documento que deu a liberdade ao capoeirista, não pode ser desconsiderado por quem não quer conhecer de fato a história e simplesmente só querem usufruir do que a capoeira hoje podes lhe dar.

A ética do Mestre Bogado não consistia em desacreditar ou humilhar quem desconhecia tais fatos, pelo contrário, ele demonstrava o caminho das pedras e dava um rumo para o capoeirista crescer.

Para ele, apenas jogar capoeira lhe faria ser um bom jogador de capoeira, mas não um bom capoeirista, pois o capoeirista conhece a luta, conhece a história, entende os versos das canções antigas, teve a paciência de aprender e terá a paciência de ensinar, isso lhe coloca no caminho para ser aceito perante outros Mestres.

A Banca de Mestre dentro das Federações que ele tanto defendeu, é uma das formas como o capoeirista pode ser avaliado. É uma forma de evitar que graduações sejam vendidas, que alunos apareçam de repente na praça com graduações de mestre, sem o reconhecimento daquele Mestre que o ensinou ou dos Mestres que estiveram ao seu redor durante aquele período que deveria ter sido de fato de aprendizado.

São inúmeros Mestres que já se depararam com situações assim, ele mesmo teve esse desgosto, de ver um aluno fechar o ano de 2014 com o Cordel Amarelo e ao iniciar o ano de 2015, receber da mão de outro mestre, um cordel de mestre branco-azul, na maior cara de pau do mundo.

Quem tem ética na capoeira não aceita isso, denuncia e bota a boca no trombone como ele fez!

O certo é certo, o errado é errado, mesmo que a maioria “por modismo” diga o inverso.

A capoeira não pode ser modismo, pois ela tem ética, respeito, fundamento e tradição.

Como ele dizia: “Na vida a gente acaba fazendo inimigos por dizer a verdade, mas isso é bom, pois assim, aprendemos a valorizar as verdadeiras amizades!”

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